Vocês sabem o que é uma releitura? Vou primeiro dizer o que é depois dar três exemplos. Um bastante conhecido e outros não muito.
O que é releitura
Releitura é uma segunda visão acerca de um determinado assunto, acerca de algo. Releitura, por exemplo, é você adaptar a obra O Grito de Munch substituindo a figura agonizante pelo rosto de um nova-iorquino e, na parte de trás, colocar o colapso das torres gêmeas.
Uma releitura é a adaptação de uma figura, de um personagem, de uma obra, ou mais abrangente ainda: De uma idéia para o seu modo de pensar ou o modo de pensar da sua geração.
Isso é ruim? Isso é bom? Vamos aos exemplos.
Exemplo 1 – Tolkien e os Elfos
Sabe o que eram elfos antes de Tolkien? Eram fadas. Eram criaturas de poucos centímetros com azinhas brilhantes e vozes estridentes que voavam pela floresta com suas vozinhas insuportáveis dançando. E o que Tolkien fez?
Tolkien pegou alguns elementos das dos elfos que hoje chamam-se fadas e construiu os seus elfos da maneira como tanto são vistos hoje. Transformou elfos em criaturas da floresta? Não, eles já eram criaturas da floresta. Transformou-os em criaturas extremamente gays? Não, elfos já eram extremamente gays. Eles continuaram sendo criaturas purpurinadas que brilham? Não, ele tirou isso.E o que adicionou? Tornaram-se guerreiros, sábios, imortais, MARAVILHOOOSO! CONSELEEEIRO! DEUS FOOOORTE! PAI DA ETERNIDADE! E PRÍIIIIIIIINCIPE DA PAAAAAAAAAIHHH!!!!!!!!!!!!!
Ok, isso foi desnecessário.
Exemplo 2 – Eoin Colfer e os Anões
Pra quem não sabe, Eoin Colfer é o autor da série “Artemis Fowl”, livros infanto-juvenis mas excelentes, com um humor extremamente refinado que algumas vezes lembra-me de Douglas Adams, o que é uma coincidência, pois Colfer escreveu um livro para a série d’O Guia do Mochileiro das Galáxias”. Se Colfer deixasse de escrever para crianças, adicionasse um humor negro e crítica aos seus livros, seria idolatrado pelo público nerd geral. Mas deixando essa introdução de lado, vamos ao exemplo de releitura:
Anões. Ele fez uma releitura dos anões. Colfer não viveu no começo do século, tal qual Tolkien, ele viveu numa época em que os anões já foram reinventados pelo inglês. E o que o irlandês fez foi reinventar as criaturas baixinhas, barbudas e mineradoras à sua vontade. Anões são mineradores, e eles escavam seus túneis da seguinte maneira: Eles deslocam seu maxilar até sua boca tornar-se gigante e atiram-se de boca na terra, comendo-a e... Sim, e depois eles fazem isso mesmo que você imaginou com a terra. Anões são criaturas com mordidas extremamente fortes e capazes de soltar gazes com força e cheiro fortes o suficiente para tornarem-se armas. Sua baba é como cola, sua barba é tão forte que pode ser usada para abrir fechaduras. Isso é outro exemplo de releitura.
Contudo, vamos ver o que o irlandês fez: Ele manteve alguns elementos do original. Mineradores, vivem na terra, escavam como nenhuma outra pessoa e são gananciosos. E colocou outros elementos, como os gazes, a barba e o maxilar deslocado.
Exemplo 3 - Stephenie Meyer e os Vampiros
Chegamos ao busílis da coisa, não é? Ao momento crítico e polêmico, não é? Ah... Não chegamos não. Vocês não perdem por esperar...
O que são vampiros. Vampiros são criaturas que sofreram modificações desde o início, tendo sua origem em folclores europeus sendo que o que se tem hoje é uma mistura geral de lendas. Um monte de releituras. De qualquer jeito, temos vampiros como criaturas que vivem de noite. Porque não gostam do sol e porque o sol os fere, normalmente porque são malditos e para tanto condenados à escuridão. São parasitas, necessitando do sangue alheio. Vistos como criaturas diplomáticas devido aos séculos de vida e aprendizado, como animais outras vezes, permeiam o cinema e a literatura há um bom tempo.
E então venho essa rapariga, essa tal Stephenie Meyer, e fez o que cada autor que escreveu cada livro sobre vampiros nos últimos cem anos fez: Pegou o modelo de vampiro vigente, manteve algumas coisas, modificou outras. Eles continuam sendo criaturas da noite? Continuam. Continuam se alimentando de sangue? Continuam. Aprenderam com os anos de vida e tornaram-se ricos e diplomáticos? Sim. Então, o que mudou?
Bem... O rapaz é gay? Ta, como se o Gary Oldman naquele filme fosse muito másculo... Ou como se masculinidade fosse um traço dos vampiros.

Eles brilham durante o dia? Ta, isso é estranho... Mas é só um detalhe. É um detalhe acrescentado ao bel prazer do autor, um direito que ele tem.
O que mais? Vamos lá, mais em relação à história... São vampiros bonzinhos com uma história extremamente puritana. Sabe por que?
Porque mídias normalmente são dirigidas a um público alvo, que nesse caso são menininhas adolescentes que acham idiota demais esperar que uma coruja traga uma carta te chamando pra uma escola de magia e preferem esperar que o colega bonitão da sala de aula seja um vampiro que a leve para um mundo mágico.
Estórias são assim. Elas representam os anseios de um público alvo, que faz com que eles gostem dela.
E você? Você odeia crepúsculo, por que?
Você acha que o que ela fez com vampiros não foi certo, que aqueles não são vampiros. Que não mereciam se chamar de vampiros.
Vampiros são uma maldita releitura e coleção de costumes. Um autor pode fazer o que quiser com os vampiros e chamá-los do que quiser, inclusive de vampiros.
Você acha que a estória é idiota, algo para menininhas de catorze anos que esperam por um príncipe encantado.
Sim, é assim que funciona. Quando você escreve uma estória assim você sabe quem é que vai gostar dela, você não espera que um motoqueiro de 55 anos ande com o livro debaixo do braço.
Você odeia a estória porque ela é ruim, porque ela insulta os seus adorados vampiros, porque você acha idiota idolatrar uma história e por isso seu passatempo preferido é falar mal de quem gosta de crepúsculo.
Faltou só completar: Você é um idiota. Sabe por que?
Porque quem idolatra crepúsculo é o público alvo, quem idolatra crepúsculo idolatra o produto, dedica sua vida ao produto.
Você dedica sua vida ao ódio do produto, você dedica sua vida a um sub-produto de crepúsculo, ou seja:
Sua vida é um sub-produto de uma merda.
PS: Eu também não gosto de Crepúsculo. Prefiro Blade.
E um agradecimento especial ao amigo Guillermo Peccilli pela ajuda com a revisão do post.





