sexta-feira, 3 de julho de 2009

Heróis e Vilões da Sociedade

“O império Britânico sempre teve dificuldade para distinguir seus heróis de seus monstros”

(Campion Bond, 1908)

Eu li isso pela primeira vez no inicio da graphic novel “A Liga Extraordinária”, definitivamente uma das melhores (e talvez a melhor) coisa que eu já li até hoje! Contudo, não época em que eu li isso, na minha tenra idade de uns 13 anos, não compreendi o que isso queria dizer. Hoje eu não só o compreendo como vejo que, 101 anos depois, a situação não mudou. A situação tornou-se mais ampla: Nós temos uma dificuldade imensa de distinguir nossos heróis de nossos monstros.



O que é um herói ou o que é um monstro? Em qual ponto Charles Bronson, matando 3 pessoas por segundo de filme torna-se um herói ao invés de um bandido? É porque ele mata bandidos que matavam inocentes? Mas ora, e muitos desses bandidos não tinham família? Mas acho que o exemplo que eu escolhi não foi muito bom, vamos deixar os anos oitenta fora disso, afinal, é a época dos bandidos de jaqueta de couro que andam por aí com canivetes, ouvindo rock’n’roll e perturbando a paz.



Um dos melhores filmes nacionais que eu já vi foi “Tropa de Elite”, é o estilo de filme que eu gosto, é a junção de violência gratuita com frases de efeito. Notaram a “violência gratuita” no texto? O sociopata Capitão Nascimento é um representante da lei, da justiça, ele tem de ser um herói, ele tem de ser o bonzinho! O problema é: até que ponto é possível combater pistolas com algemas? Então Nascimento não utiliza da diplomacia para fazer o bem, ele, como o Batman clássico (o clássico, não esse boiola deformado pelo psicólogo maluco) como um cavaleiro negro da porrada em todos que estão no seu caminho para atingir seu objetivo, para estourar a cabeça de um bandido. Nós vemos um sujeito mal encarado dando porrada em culpados e inocentes para prender um bandido. E o que é que nós dizemos? “VIVA O CAPITÃO NASCIMENTO!!!”, “A SOCIEDADE PRECISA DE MAIS POLICIAIS ASSIM!!!”. “CAPITÃO NASCIMENTO É O HERÓI DE QUEM O BRASIL PRECISA!!!”.



Nascimento pode ser um policial que não se corrompe tão pouco se omite, mas o problema é a maneira com a qual ele ‘vai pra guerra’. Ora, corrupção e omissão são problemas sérios, é verdade, mas também a violência desnecessária faz com que não possamos distinguir nossos policiais de nossos bandidos, nossos heróis de nossos monstros.


Dois anos depois os cinemas presenciaram o filme “Watchmen”, que tornou ainda mais conhecida a genial obra do Alan Moore. E, se perguntarmos para 10 pessoas qual seu personagem favorito, receberemos de 8 essa resposta: RORSCHACH. Ora, Rorschach é um personagem mentalmente abalado e com tendências fascistas, contudo, quem preferimos ser: O sujeito inteligente e fracassado que não come a mulher por quem é apaixonado e tem uma vida de merda reprimido em sua casa e vida monótona (O Coruja), ou o sujeito que não leva desaforo pra casa, que quando é xingado na rua enfia a mão na cara do sujeito, que quando é desrespeitado no bar, destrói a mão do sujeito (Rorschach). Ora, nós já somos um Coruja, sendo humilhados por nossos patrões! Nós queremos ser um Rorschach! Nós queremos mandar nosso patrão se foder, arrebentar o monitor na cabeça dele e cagar em cima da sua mesa! Nós queremos encher de porrada aquele filho da puta que nos enche o saco.... Mas nós, nós não temos coragem! E é por isso que queremos ser um Rorschach, um Capitão Nascimento!



Nós queremos ser um Rorschach ou um Capitão Nascimento para arrebentarmos a cara daqueles que agem como um Rorschach ou um Capitão Nascimento! Nós queremos uma sociedade de mais Capitães Nascimento, uma sociedade repleta de Rorschachs... Mas.... E não são eles o problema?

É esse o problema: Nossa sociedade está repleta de monstros, e os poucos heróis que restam não agüentam de vontade de tornarem-se monstros também. Que merda, né?

3 Heresias:

guil disse...

"Nós queremos mandar nosso patrão se foder, arrebentar o monitor na cabeça dele e cagar em cima da sua mesa!"

farei isso um dia.

San disse...

É difícil conseguir combater qualquer tipo de mal sem ser o extremo oposto, ou um igual.
Agora, pacifismo até serve pra algo, mas pacifistas jamais são heróis.
O povo, acho, não quer ser herói, só quer ser reconhecido, custe o que custar.
Moral e estética andam juntas, as vezes até demais ;/

Anônimo disse...

Nobody's Hero - Rush